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Sobre a série: ALVORADA

May 9, 2019

ALVORADA

Carol Melo. 2015

Nazaré da Mata, Pernambuco. Brasil.

 


 

O maracatu é construído e mantido por mão calejadas do trabalho pesado do corte da cana, as mesmas mãos que cortam, criam e bordam delicadezas no tecido com milhares de lantejoulas, miçangas e paetês, como o trabalho de um enxame de vagalumes.

 

 


A série ALVORADA realizada em 2015 parte de uma experiência de três momentos distintos que tive maior contato com o ato de fazer o maracatu com as próprias mãos, de estar presente no ensaio, ou no 'bater o terno' e na apresentação apoteótica que é o carnaval de Olinda.

Começou na cidade de Nazaré da Mata quando fui fotografar uma batida de terno que foi batizada de Alvorada; era a celebração de uma vitória dos maracatuzeiros sobre a policia militar, que por três anos dava o “toque de recolher” nas sambadas que raiavam o dia na Zona da Mata Sul pernambucana, berço do maracatu rural. Mês seguinte, fevereiro, e esses que tanto foram interrompidos pela policia por anos, eram mais uma vez a grande estrela do carnaval, que é a maior festa do país e símbolo cultural do Estado. Em março, na cidade de Tracunhaém, participei e fotografei a oficina de confecção de golas de caboclo de lança do maracatu Águia Formosa; do corte ao bordado, da apoteose à simples sede, aprendi de tudo um pouco, ou muito. A vontade de fazer um percurso pelo processo da construção de um maracatu era grande, mas só percebi que havia feito, que tinha uma história, uma linha que costurava essas narrativas, anos depois. 
 

Então decidi explorar cada um desses três momentos distintos, em cidades diferentes, mas que fazem parte de um só processo. A primeira, o fazer, o corte e o desenho das roupas, depois o ensaio, chamada de sambadas ou 'bater o terno', e por fim o carnaval, onde quem trabalha o ano inteiro como cortadora de cana é rainha coroada no carnaval.
 


Uma carta publicada no jornal na época do toque de recolher, do artista Siba Veloso, fala do maracatu e de toda essa situação de forma simples, clara e poética e deixo aqui alguns trechos pra quem possa interessar em saber um pouco mais sobre o assunto.
 

 

“Nela, se dança um ritmo que só existe ali. Não tem um passo único, estereotipado, cada um dança de um jeito, no estilo da coisa, mas ninguém dança igual. A Manobra, coreografia que abre e fecha a festa, é um movimento intrincado que envolve dançarinos, músicos e poetas numa constelação em movimento que parece a imagem do caos que gerou o mundo, mas que se move com a graça e a beleza de um futuro mundo melhor possível, pra quem souber ver. (…)
Tudo na expressão do Maracatu de Baque Solto afirma e reafirma a singularidade das pessoas que nele se vêem representadas. Essas pessoas são, em grande parte, as mais pobres de uma região cujas limitações estão diretamente vinculadas a seu passado escravocrata. A Zona da Mata é a cana de açúcar e suas mazelas e o Maracatu é invenção, tesouro volátil, “patrimônio imaterial”do trabalhador da cana.
Ensaio de maracatu vai até o amanhecer, por costume secular. Para o maracatuzeiro, maracatu só é maracatu se amanhece o dia. Se não, vira “folclore”. (...)
A importância de amanhecer o dia fica mais fácil de se entender se for pensada talvez como uma coisa mística, religiosa. Parece simples, mas não é. Precisa-se de uma noite inteira mas não se trata de quantidade de tempo, e sim da possibilidade de suspensão do tempo. Fazer o tempo parar: As pessoas que realizam o trabalho braçal mais pesado só sabem se divertir também levando seu corpo ao limite na dança, no canto, no malabarismo mental da rima. (…)
Maracatuzeiro é quem espera o culto evangélico terminar pra começar a festa. É quem cancela ensaio quando morre alguém do bairro em data próxima. Maracatu também tem que estabelecer acordo com a polícia. Pra fazer seu ensaiozinho de maracatu você prepara um ofício e vai na delegacia e no quartel de sua cidade informando sobre a realização da festa e solicitando a presença da polícia no local.(...)”

 



¹ Fonte da carta: Estado cerceia maracatus na Zona da Mata Norte restringindo horário de ensaios e sambadas. Site: http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/noticia/2014/02/05/estado-cerceia-maracatus-na-zona-da-mata-norte-restringindo-horario-de-ensaios-e-sambadas-116338.php

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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